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Luz no fim da Cúpula!

ECOA

20/12/2019 04h00

Já que sou a árvore em pessoa, conheço bem o valor de uma floresta neste mundo assolado pelas mudanças climáticas. Um pé de Jatobá, por exemplo, aspira dióxido de carbono e lança oxigênio na atmosfera como nenhuma outra árvore. É a faxineira do ar. Captura de carbono é coisa que a mata faz como ninguém. Por isso, floresta em pé é o segredo para o bem do meio ambiente.

Acontece que a gente lança um volume absurdo de gases poluentes. E não há floresta, por mais portentosa que seja, capaz de aspirar tudo e ajudar o planeta a manter seu equilíbrio e as condições de sustentar a vida. O jeito é evoluir para uma economia de baixo carbono: desmatamento zero e redução drástica das emissões.

A COP 25 quis exatamente isso: convencer os líderes mundiais a ampliar sua ambição climática, se comprometendo de verdade com a Revolução Verde. Isso requer adotar medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 45% até 2030 e atingir a neutralidade de emissões até 2050. Os países precisariam ser cinco vezes mais eficientes.

Faltou coragem, vontade política.

Depois de 10 dias de reuniões sob forte pressão da juventude em grita geral, a COP 25 terminou sem alcançar seu principal objetivo: regulamentar o artigo 6 do Acordo de Paris, que trata da criação do mercado de carbono para incentivar ações que mitiguem as mudanças climáticas. Pela regra, quem ultrapassar o limite de emissão, compensaria o excedente financiando projetos em países que fizeram o dever de casa.

Tivemos que concordar com a "pirralha". Greta Thunberg, jovem ativista de 16 anos, eleita pela Revista Time "Pessoa do ano", anteviu o fracasso da COP 25 ao afirmar: "políticos e CEOs estão fazendo parecer que uma movimentação real está ocorrendo quando, na verdade, quase nada é feito além de contabilidade inteligente e relações públicas criativas".

Os principais emissores de carbono não estão nem aí mesmo para a emergência climática. Estados Unidos, China, Índia, Arábia Saudita, Japão, Brasil e Austrália são apontados como alguns dos países que dificultaram a inclusão de metas mais ambiciosas.

O governo de Donald Trump nem disfarçou, confirmou a saída do Acordo de Paris. A China diz que está comprometida em neutralizar suas emissões, porém não para de investir em carvão mineral.

O Brasil opera um desmonte da política ambiental e passa de benfeitor a vilão aos olhos do mundo. É acusado de mirar apenas no dinheiro do Fundo Verde do Clima, sem ter crédito, nem plano concreto para merecer investimentos. Venceu, pela primeira vez, o Prêmio Fóssil do Ano, entregue a países que bloqueiam o progresso nas negociações. Faturou também o prêmio Fóssil do Dia duas vezes, por ostentar a maior taxa de desmatamento da Amazônia em uma década, invasões de terra e o assassinato de três líderes indígenas em uma semana. Nosso presidente foi batizado de uma "bomba de carbono ambulante".

Mas se os representantes das nações mais poderosas do planeta ignoram o clamor global, uma multidão de ativistas, empresários e políticos regionais faz uma revolução silenciosa e promissora rumo a um modelo sócio-econômico sustentável.

Cito alguns exemplos.

O Conselho Interestadual dos Governos da Amazônia Legal, um consórcio formado por 9 estados do país, tenta convencer a Noruega e Alemanha a criar um sucedâneo do Fundo Amazônia que se dirija diretamente à região, sem precisar da intermediação da União via BNDES. As tratativas avançam. Uma parceria com a França também foi anunciada na COP 25.

Ainda no Brasil, ressalto a Amazônia Possível, que reúne instituições como Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, CEBDS, Arapyaú, Rede Brasil do Pacto Global, Instituto Ethos e Sistema B. Na COP eles apresentaram um levantamento feito com 26 empresas, que mapeou investimentos robustos, geração de empregos na região e lançou um processo colaborativo para a construção dos 10 princípios empresariais com o objetivo de atuar de forma sustentável na chamada Amazônia 4.0.

Outro exemplo a ser celebrado é a Raps, Rede de ação política para a sustentabilidade, que trabalha para formar lideranças políticas comprometidas com o meio ambiente.

Quando o presidente americano saiu do Acordo de Paris, 1.200 líderes disseram "nós continuamos". Agora, são mais de 3.600 que vêm de cidades, universidades e estados. O estado da Califórnia surgiu como uma referência mundial com compromissos tão ambiciosos como usar 100% de energia limpa em sua rede elétrica em 2045. Já obteve 29% de sua eletricidade no ano passado por meio de fontes renováveis, graças aos investimentos em energia solar, eólica e geotérmica.

Esses agentes da Revolução verde são como folhas e galhos. Avançam periféricos, longe das cúpulas, formando a copa de árvores frondosas.

Sobre a autora

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

Sobre o Blog

Abordando atitudes sustentáveis do nosso dia a dia, o blog mostra como podemos buscar a melhor integração com o meio ambiente. Com mudanças e adaptações inteligentes, podemos viver em um lugar natural e agradável, além de economizar dinheiro, contribuir para minimizar o impacto socioambiental e gerar uma cidade mais saudável para todos. Começa no âmbito pessoal a mudança que desejamos ver no mundo.

Rosana Jatobá