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Eu juro que é melhor não ser um normal

ECOA

31/12/2019 04h00

Se você disser a data completa de seu nascimento, ele te dirá em cinco segundos o dia da semana em que você veio ao mundo. E se porventura você o encontrar, será algo inesquecível. Daí a 10,15 ou 20 anos, ele te fará lembrar dos mínimos detalhes do encontro, desde a cor da sua roupa, o tipo do sapato ou o assunto que foi tratado. Se o tema for música, ele vai apontar o autor, o título da canção, o ano do lançamento da obra e recitará a letra.

Esse cara é meu irmão. Anderson tem 50 anos, vive em Salvador, na Bahia, com meu pai, cultivando hábitos bem peculiares de um homem maduro que tem a mente de uma criança. Andrinho, como é chamado, foi diagnosticado com síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo, mas pesado o suficiente para não ser compreendido nesse mundo de intolerância às diferenças.

Andrinho não conseguiu acompanhar a escola tradicional, teve que ter professor particular. Por ser quieto, muito puro e sincero, era excluído dos grupos de amigos, sofreu com a reprovação alheia e não entendia porque as pessoas o chamavam de louco. Foi pela dor dele que eu aprendi a respeitar as individualidades. Mas foi também pela mente criativa e pelo comportamento "estranho" que eu aprendi a valorizar o gênio.

Como meu irmão, há milhões de pessoas com algum tipo de "deficiência" aos olhos dos pobres "normais". Na maioria anônimos e marginalizados num planeta que, em tese, deveria ser para todos. Quem não se enquadra, dificilmente conquista o reconhecimento que merece.

O criador da famosa Teoria da Relatividade, Albert Einstein, foi uma exceção entre esses "loucos". Apesar de nunca ter sido diagnosticado com Asperger, especialistas afirmam que ele tinha traços claros do espectro autista. Mesmo caso de Mozart, Beethoven e Newton.

Já o diretor, escritor, ator e roteirista Woody Allen foi identificado como portador da Síndrome de Asperger, assim como o revolucionário da tecnologia Bill Gates. Só Deus sabe as agruras que eles enfrentaram até serem içados à glória.

A Asperger notável da vez é capa da revista "Time" como Pessoa do Ano, símbolo da indignação pela destruição do meio ambiente. Greta Thunberg é a porta-voz de uma juventude engajada. Em pesquisa da Anistia Internacional com dez mil jovens, 41% consideraram mudança climática uma das questões mais importantes do mundo. A ativista sueca foi diagnosticada aos 12 anos de idade e escondeu sua condição durante quatro anos por medo de ataques. "Muitas pessoas ignorantes ainda veem como uma 'doença' ou algo negativo."

De fato, Greta é alvo de haters, da imprensa e até de presidentes da república. Ofensas do tipo "perturbada, raivosa, pirralha, atrasada mental". Nada que abale sua determinação. Ao contrário, foi a bandeira da preservação ambiental que a salvou do ostracismo. "Antes de dar início à campanha climática, não tinha energia, não tinha amigos e eu não falava com ninguém. Fiquei sozinha em casa, com um distúrbio alimentar."

A coerência do discurso com a prática se revelou quando Greta deu início a uma aventura "sustentável" em alto mar. Ela viajou do sul da Inglaterra até Nova York em um veleiro, por se recusar a fazer o trajeto de avião por causa das emissões de carbono. E admitiu que sua luta contra a crise climática se deve à sua forma singular de enxergar e se relacionar com o mundo. "Eu tenho Asperger e isso significa que, às vezes, eu sou um pouquinho diferente da norma. E dadas as circunstâncias, ser diferente é um superpoder".

Greta Thunberg mostra que o superpoder da humanidade é a convivência, virtude para a sustentabilidade natural e social. A convivência é fundada na consciência de que todos os seres formam uma comunidade cósmica e biótica. E são portadores de informação, história e de um modo próprio de se conectar. Conviver significa aceitar diferenças e desafiar o limite maior da cultura ocidental, que é sua incapacidade histórica de acolher o outro como ele é. Cada um tem valor intrínseco, tem seu lugar no conjunto dos seres, no interior de seus ecossistemas e revela dimensões singulares do Ser.

Greta e Anderson são a doce "loucura" de que a gente precisa pra viver num mundo melhor.

Sobre a autora

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

Sobre o Blog

Abordando atitudes sustentáveis do nosso dia a dia, o blog mostra como podemos buscar a melhor integração com o meio ambiente. Com mudanças e adaptações inteligentes, podemos viver em um lugar natural e agradável, além de economizar dinheiro, contribuir para minimizar o impacto socioambiental e gerar uma cidade mais saudável para todos. Começa no âmbito pessoal a mudança que desejamos ver no mundo.

Rosana Jatobá