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Distanciamento social expôs nosso desejo por afeto

ECOA

22/03/2020 06h00

Estava tudo certo para o primeiro encontro. Os dois já se observavam e se desejavam pelo filtro inebriante das redes sociais. Tinham a torcida de amigos em comum, que já os rotulavam como um casal perfeito, na forma e no conteúdo, uma promessa de amor maduro, com a faísca adolescente capaz de incendiar.

Os dois não se aguentavam mais, tinham que se ver, conversar, se tocar. Mas o impeditivo veio mais rápido e impôs o distanciamento, a quarentena, lançando às calendas o dia da tão sonhada entrega! Não sabiam se e quando iriam materializar os desejos ardentes…

Nada ultrapassava o terreno virtual.

O coronavírus radicalizou um fenômeno que já vinha preocupando muita gente: o aniquilamento do diálogo, da conversa cara a cara, da presença.

A privação social extrema afastou os amantes e separou avós de netos. Fez do nosso tempo escasso, uma eternidade.

Os estudiosos da psique humana já relatam aumento de casos de ansiedade, depressão e descontrole. A sensação é de insegurança, de estarmos à deriva.

O coronavírus extrapolou os impactos sanitários, econômicos e financeiros e invadiu as fronteiras da saúde mental.

Mas tão surpreendente quanto o aparecimento súbito desse inimigo invisível e feroz é o paradoxo que ele carrega.

Quando a epidemia impôs o distanciamento social, muita gente profetizou a supremacia das individualidades, dos egos, o fim do senso de coletividade . Cada um por si. Mas não. Nos limites impostos pelo vírus, há muitas expressões de afeto. Se não da mais pra se beijar e abraçar, tem o afago da solidariedade se manifestando por toda parte. Um engajamento coletivo pelo bem comum. Uma oportunidade de entender que somos um todo! Que se não for bom você, não pode ser bom pra mim.

Reproduzo aqui parte do lindo texto do jornalista Cristina Almeida, de UOL VivaBem. "'Essa doença é sobre o outro, não é sobre nós'. Foi assim que a gerente de comunicação Christiane Cralcev justificou sua iniciativa de colocar no elevador social do prédio onde mora, em São Paulo, um comunicado disponibilizando-se a ajudar seus vizinhos idosos em caso de necessidade. O texto finaliza com a hashtag #ninguemsoltaamãodeninguém, uma analogia à imperiosa necessidade de que, na hora de uma crise como a da covid-19, o que deve prevalecer é o espírito comunitário, já que dar as mãos em tempos do coronavírus é desaconselhado."

Em Belo Horizonte, vizinhos também criam redes de solidariedade e se oferecem para fazer compras para idosos. Em vários prédios e em grupos de Whatsapp, moradores estão se colocando à disposição dos mais velhos para ir à padaria, mercado ou farmácia.

Na frenética Nova York, vizinhos que jamais se viram, quiçá se conectaram, agora deixam bilhetes por debaixo da porta do outro, pra dizer que está tudo bem, que vai passar, que nossos avós enfrentaram outras pestes e deixaram seu legado.

Na Espanha, o som do sax e do teclado que vem das sacadas preenche de amor e sensibilidade as ruas desertas e o coração dos confinados.

Na Itália, são as serestas que embalam as noites sem fim de quem se blinda da doença.

Em tantas outras varandas virou hábito aplaudir os profissionais de saúde e pessoas que trabalham em supermercados e farmácias, num gesto simples, mas que ecoa forte a gratidão.

O Instagram, Twitter e Facebook se transformaram em palcos de artistas famosos e anônimos, que usam seu talento para afastar a melancolia de quem está preso em casa. Tem gente que faz live de aulas de ginástica e yoga, para manter o corpo sempre em movimento e a mente sã.

Minha professora de Vinyasa Flow em São Paulo, Miriam Aguiar, é uma das que fazem bom uso da quarentena para espalhar o poder curativo do yoga.

O exemplo se multiplica. Em Montana, nos Estados Unidos, depois de um primeiro encontro online com mil pessoas conectadas por meio da técnica de ThetaHealing, o instrutor Dawna Campbell fez a segunda reunião pela internet para falar das lições espirituais e energéticas do coronavírus no dia 21 de março. Foi o Corona Virus Planetary Healing, com transmissão prevista para 28 países.

Muita gente comemora a oportunidade de estar mais em família e aprofundar os vínculos afetivos. Pais e filhos que mal se viam na correria do cotidiano, agora estreitam os laços.

Tenho notado também uma mudança no padrão de relacionamento do trabalho doméstico. Privados de quem poē suas vidas em ordem, os patrões tiveram que botar a mão na massa em casa. Nunca sentiram tanto na pele o quão valiosos são seus empregados. E a incerteza sobre o fim da doença soa como um castigo.

Talvez a tremenda falta que faz a cozinheira, a babá, a arrumadeira, a diarista, o motorista, o jardineiro… ajude a mexer na triste estatística da desigualdade social. No Brasil, o 1% mais rico concentra 28,3% da renda total do país (no Catar essa proporção é de 29%). Ou seja, quase um terço da renda está nas mãos dos mais ricos. Já os 10% mais ricos no Brasil concentram 41,9% da renda total.

Por causa da infecção, o rico não poderá garantir leito nos melhores hospitais. Em algum momento, ele vai depender da saúde publica, e ter que suportar as agruras de um sistema em iminente colapso. Vai ser difícil, muito difícil.

Mas essas experiências serão a chave para abrir a porta da empatia, valor tão esquecido nesses tempos de materialismo, de inconsciência.

É verdade que a convivência exacerbada em pequenos círculos já está trazendo à tona tensões latentes e mudando estatísticas nas varas de família. Algumas províncias da China já relataram aumento dos pedidos de divórcio.

Mas também é de se supor que a clausura pode ser a pimenta que falta para a construção de muitas histórias de amor. O desejo reprimido, limitado ao ambiente virtual, fará valer cada minuto de espera do casal que descrevo no começo deste artigo. Posso garantir!

Sobre a autora

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

Sobre o Blog

Abordando atitudes sustentáveis do nosso dia a dia, o blog mostra como podemos buscar a melhor integração com o meio ambiente. Com mudanças e adaptações inteligentes, podemos viver em um lugar natural e agradável, além de economizar dinheiro, contribuir para minimizar o impacto socioambiental e gerar uma cidade mais saudável para todos. Começa no âmbito pessoal a mudança que desejamos ver no mundo.

Rosana Jatobá