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A covid-19 nos vacinou contra nós mesmos?

ECOA

10/04/2020 04h00

Enquanto o novo coronavírus deixa seu rastro de destruição pelo mundo, sem preconceitos de raça, idade, gênero ou religião, amplamente adaptável a todo tipo de clima ou ecossistema… estamos aqui acuados, escudados por um confinamento que aprisiona, mas liberta a mente para as reflexões.

Uma das que mais me impactaram ultimamente veio no Instagram, da cabeça de um amigo, o empresário Victor Oliva. No post ele propunha a provocação: "E se nós formos o vírus, e o covid-19 a vacina?" Na sequência, a verdade incontestável das palavras dele:

"Mas e agora? Como vai ser? Minha sensação é que perdi completamente as rédeas da minha vida. Virei passageiro de um trem fantasma que vai percorrer o mundo inteiro. A estações se sucedem, e em todas elas o pânico é o ponto em comum. Como será o resto dessa existência dependerá demais do comportamento de bilhões de desconhecidos. Os mesmos que esticaram a corda fazendo do planeta um esgoto. O medo de todos chegou de repente. Nunca mais seremos os mesmos. E aquela vida que tínhamos acabou para sempre. A boa notícia é que se aprendermos alguma coisa nesse momento ela pode ser melhor."

De fato, está em curso uma guerra mundial em moldes inéditos, que nos faz questionar quem de fato é o vilão.
O novo coronavírus se alastrou pelo mundo graças à ação destrutiva e invasora do ser humano contra a natureza! O organismo que causa a covid-19 está há tempos no meio ambiente, provavelmente alojado em morcegos nativos de cavernas intocadas.  Com a crescente urbanização e consequente invasão humana, porém, o vírus quebrou seu ciclo natural e alcançou o ser humano. Fomos nós que cutucamos o bicho com vara curta e inauguramos a guerra. Mas antes que chegássemos a um estado de terra arrasada, o meio ambiente reagiu para tentar recuperar sua perfeita harmonia. Reagiu de uma forma surpreendente, estratégica e pedagógica com relação à humanidade, como faz uma mãe que quer educar seu filho. – "Vá para o canto de castigo pra pensar no que você fez!".

E até hoje estamos pensando no nosso canto… num confinamento que devolveu à natureza seu espaço sagrado.
Repare nos pássaros cantando a plenos pulmões! "Alguns pássaros param de cantar quando há barulho. Com os motores das cidades desligados, o canto ressoa forte ", explica Jérôme Sueur, especialista em acústica do Museu Nacional de História Natural.

O voo de pardais, pombos e corvos é sonoro e rasga o azul infinito de um céu limpo, despoluído.
Golfinhos estão de volta às costas.

Javalis foram vistos em Barcelona e um puma selvagem percorreu as ruas desertas de Santiago do Chile.  Com o declínio brutal da presença humana nas ruas, os animais selvagens têm via  livre para passear. A festa dos bichos, pra nossa inveja, tem música, ambiente seguro e sexo à vontade. A quarentena dos seres humanos coincide, para certas espécies, com o período de acasalamento.

É o caso do sapo-comum e da salamandra-malhada, que são frequentemente atropelados quando atravessam as ruas, de acordo com Jean-Noël Rieffel, diretor regional do Escritório Francês de Biodiversidade. Em inúmeros parques do mundo, agora fechados ao público, a natureza e os animais estão retornando às suas áreas naturais em uma velocidade surpreendente. 

As orquídeas selvagens que florescem no final de abril, início de maio, este ano vão crescer em paz, sem risco de serem prematuramente arrancadas.

Nos centros urbanos, os gramados crescem e oferecem recursos para abelhas e borboletas.

Assistimos de longe o belo espetáculo de vingança da natureza. Há tempos que ela vem alertando para os abusos:  a forma como  passamos a ocupar cada vez mais áreas silvestres e as florestas, com o intuito de explorar seus recursos para fins econômicos..numa escalada de avanço sobre ecossistemas naturais, destruindo espécies vegetais e animais.

A teoria de Gaia, a terra como organismo vivo, do cientista James Lovelock, permite supor que o coronavirus é, portanto, um  elemento que surgiu para favorecer a regulagem de um sistema que estava em desequilíbrio. Pura defesa.

Resta saber como será o pós-guerra diante dessa grande lição. A covid-19 nos vacinou contra nós mesmos?

Não adianta mais ignorar a máxima de que seres humanos e natureza são parte de um mesmo sistema, o sistema ecológico. Não adianta achar que podemos dominar as outras espécies ao bel prazer, como se fossemos parte dissociada do meio ambiente. Nossa relação é de interdependência.

A engenheira agrônoma Ana Primavesi, que nos deixou no ano passado, aos 99 anos,  nos ensina: "Ficamos cientes de que, onde a técnica se choca com as leis naturais, a natureza é que prevalece e domina. Devemos, portanto, reconhecer e aceitar esses limites, fazendo o máximo possível em favor de nossa terra".

Na mesma linha,  diz o ambientalista Crispin Tickell, "temos que encarar a vida com respeito e assombro", precisamos de um sistema ético em que o mundo natural tenha valor não apenas para o bem estar humano, mas para si e em si.

Sobre a autora

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

Sobre o Blog

Abordando atitudes sustentáveis do nosso dia a dia, o blog mostra como podemos buscar a melhor integração com o meio ambiente. Com mudanças e adaptações inteligentes, podemos viver em um lugar natural e agradável, além de economizar dinheiro, contribuir para minimizar o impacto socioambiental e gerar uma cidade mais saudável para todos. Começa no âmbito pessoal a mudança que desejamos ver no mundo.

Rosana Jatobá